À conversa com José Barbosa

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Começa a contagem decrescente para o levantamento do defeso da pesca à truta em Portugal, a partir do próximo dia 1 de Março  milhares de pescadores nacionais vão calcorrear as margens  de rios e ribeiras à procura desse peixe que desperta emoções fortes difíceis de esquecer , dificuldade será mesmo não ficarmos viciados para o resto nas nossas vidas..

Revela-se para mim importante divulgar acções , pensamentos e correntes de opinião de quem para mim tem estado na linha da frente na preservação desta magnifica espécie considerada por muitos a rainha dos nossos cursos de água que sucalcam a paisagem do Centro e Norte de Portugal… Hoje publico uma conversa com José Barbosa, um aficionado e excelente pescador de trutas ,  plumista inveterado e  pescador sem morte assumido convicto dos seus ideais que não se limitou a cruzar os braços e a assistir ao declínio da população truteira. Conhecedor de outras realidade é  actual secretário da direcção da Associação Recreativa de Pesca de Canedo e Louredo entidade responsável pela concessão de pesca no rio Inha José Barbosa é  igualmente um dos dinamizadores e responsáveis da actual concessão do Inha.

 Em minha opinião nunca se viveram tempos tão importantes como os actuais no que concerne à pesca à truta, o que agora for feito pode ser a linha que separará a preservação desta espécie autóctone  ou o desaparecimento total das populações selvagens.
O meu sincero agradecimento ao José pela disponibilidade em aceder ao meu pedido e a todas as fotografias cedidas para este post, penso que esta conversa será do interesse de muitos, ou pelo menos daqueles que verdadeiramente são apaixonados pela pesca às trutas:

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Comecemos pelo início, de onde surgiu essa paixão pela pesca às trutas?

A minha paixão pelas trutas está intimamente ligada a um curso de água, o rio Uíma. O meu avô materno explorava uma unidade fabril nas margens do mesmo e eu, em criança, fui entregue aos cuidados dos meus avós maternos devido ao facto de os meus pais terem emigrado para França. Assim, muito cedo comecei a percorrer as margens desse rio, observando sempre com muita curiosidade os peixes que por lá andavam. Ouvia falar das trutas mas para mim tudo eram peixes, não distinguia uns de outros. Mas também ainda não pescava. Mais tarde, por volta dos dez anos de idade, já estava autorizado a pescar, num local onde pudesse ser observado pelo meu avô ou por um dos meus tios. Pescava à bóia, com uma cana muito velha pertença do meu tio Zé, utilizando pedacinhos de pão que amassava entre os dedos, moscas que capturava, eventualmente um grilo ou um gafanhoto. E lá ia capturando umas bogas, escalos e outros pequenos peixes ciprinídeos. Os peixes capturados eram colocados num regador de cor laranja, e depois eram devolvidos à água. Aos 11 anos capturei um peixe que era muito maior que os outros. Chamei o meu tio Augusto numa das ocasiões em que ele vinha observar se estava tudo bem e disse que tinha apanhado um peixe enorme com pintas pretas e vermelhas. Convenhamos que para um miúdo de 11 anos, um peixe com cerca de 30 cm é um monstro! O meu tio lá veio ver e disse: isto é uma truta! Foi o momento que considero o início desta paixão que, literalmente, me devora. Mas não foi de imediato que comecei a dedicar-me à pesca à truta. Não tinha os meios nem o dinheiro para adquirir o equipamento. Mas fazia muitas incursões, pelas margens do rio, escondido entre a vegetação, apenas para observar as trutas, a alimentarem-se, a reproduzirem-se. Ainda hoje faço isto, sobretudo durante o defeso.
Com o decorrer dos anos, fiz bastantes pescarias às taínhas, no Douro, antes da activação da barragem de Crestuma-Lever, e aos barbos. Depois, fui fazendo umas pescarias na nova albufeira, aos achigãs, às carpas e outros ciprinídeos. No entanto, era a truta que me movia cada vez mais e acabei por relegar as outras espécies para as ocasiões em que não podia pescar à truta.
Hoje, com 43 anos, não consigo explicar este ardor que todos os anos me consome!!
É algo que se sente, é um apelo contra o qual não consigo, nem tento sequer, lutar!

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 Sei que és um elemento activo e muito participativo no projecto que engloba a concessão do rio Inha, como surge o projecto e o teu envolvimento?

O rio Inha é outro dos vários rios que marca a minha profunda ligação com a truta, mas de uma forma diferente.
Quando adolescente, pescava o Inha quando algum dos meus tios me levava, pois o elemento “distância” obrigava-me a estar dependente de outros.
Durante os primeiros anos do corrente século, já não dependendo dos outros, fazia as minhas incursões pelo Inha com mais regularidade, sobretudo na recta final da época, pelas condições mais adequadas à prática da pesca à pluma.
Em 2009 foi criada a concessão, mas por esta altura estava eu algo afastado deste rio, por razões diversas.
Em 2011 tomo contacto com a associação gestora da concessão, faço-me associado e acabo por sentir alguma frustração.
No início da época largavam umas trutas, que eram logo capturadas sem apelo nem agravo e depois era o pessoal que as tinham levado para casa a reclamar que não havia trutas.
Sendo interventivo por natureza, não tardei a manifestar a minha perspectiva contrária às largadas de trutas e a tentar transmitir uma opinião de que a associação deveria direcionar os esforços para a preservação das trutas, mais do que para a vertente “vender licenças para os homens do cesto de vime”.
Como era de esperar, foram muitos os anticorpos que tive pela frente mas, com mais ou menos afirmação da minha paixão, lá fui transmitindo a minha opinião e perspectiva e gradualmente as pessoas começaram a dar-me ouvidos.
A par do meu “discurso” tive sempre o cuidado de mostrar o que é a pesca sem morte e que a praticava efectivamente.
Uma truta é muito mais bonita de se ver na seu meio natural do que num prato!
Embora não pertencesse aos órgãos da associação, em 2012 já intervinha nas assembleias de associados, fazendo sempre questão de incentivar uma mudança de pensamento e de atitude na gestão da concessão.
Vivi momentos de alguma tensão, mas também começaram a surgir os apoiantes da mudança de mentalidades e assim chego, em 2013 à posição de Secretário da Direcção, com a condição sine que non de que a minha intervenção na associação só duraria numa perspectiva de que, não haveria mais largadas de trutas e de que não haveria mais pesca com morte. Fui claro desde o início!
Como a ideia era nova, nessa época um dos lotes (o menos frequentado) ainda ficou em regime de pesca com morte (não obrigatório obviamente!) e em 2014 toda a extensão da concessão transitou para o regime de pesca sem morte.
Mas a intervenção na associação não se resume a este aspecto, já que temos vindo a tentar perceber, época após época, os movimentos dos peixes, para tentar criar condições que permitam uma maior estabilidade dos peixes e menos migração dos efectivos nos meses em que o caudal do rio é baixo.
Como o Inverno de 2013/2014 foi extremamente chuvoso, a intervenção ficou comprometida e foi recentemente no início do Outono de 2014 que procedemos a alguma limpeza de detritos, terras e areias acumulados nalgumas zonas do rio e à colocação de pedras para criar mais postos de caça / esconderijo para as trutas.
Vamos agora tentar perceber até que ponto estas pequenas intervenções foram favoráveis, para depois, continuar o trabalho.

Queres contar mais pormenores sobre a concessão? A pesca sem morte parece ganhar um factor preponderante  e diferenciador na mesma…

Sim, como já disse, a pesca sem morte acaba por ser “a menina dos nossos olhos”. Embora me considere, sem falsas modéstias, um dos motores da pesca sem morte, neste momento a perspectiva já quase alcançou as suas letras de nobreza entre os associados.
Não estamos a travar “uma cruzada” contra a pesca com morte, mas sim a começar a transmitir a ideia de que uma concessãoo de pesca onde as trutas são a espécie predominante é muito mais interessante e apelativa, a vários níveis, se for auto-sustentável do que uma concessãoo onde o único objectivo é apanhar trutas para o cesto.
De uma ideia filosófica (para  muitos) a pesca sem morte está a transformar-se num elemento que nos distingue pois mesmo os não pescadores, quando contactam com esta realidade, embora achem de início a ideia “esquisita”, acabam por entender os nossos propósitos e perceber que um pescador não é forçosamente um matador e pode tirar proveito da Natureza e dos recursos destas sem ter de destruir o que quer que seja.
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 Que acções mais destacas na gestão da concessão?

Além de tentarmos melhorar, progressivamente, época após época, as condições para as populações de trutas, queremos com isso também fazer com que os pescadores que frequentem a concessãoo se sintam num espaço convidativo, interessante e que coloque os seus dotes à prova.
Não é fácil, pois as pessoas envolvidas neste projecto fazem-no por carolice e os apoios das entidades públicas são muito residuais.
Isto sem contar que existem sempre vários aspectos sobre os quais não temos meios de controlo, tais como os actos de furtivismo que ainda vão acontecendo e alguma poluição.
Neste momento estamos conscientes de que a concessão actual é exígua para os nossos objectivos, mormente o de preservar as trutas e impedir que a ganância de certos pescadores extermine as populações de certos sectores do rio.
Por isso, um dos nossos principais objectivos passa por aumentar a área concessionada – por um lado para aumentar a área de salvaguarda das trutas graças à pesca sem morte e por outro lado para permitir que os pescadores disponham de uma área superior e diversificada onde desafiar as pintonas.
Outro dos nossos objectivos está relacionado com os jovens (e menos jovens que o queiram), através de encontros ou workshops destinados a divulgar a nossa actividade, os nossos propósitos mas acima de tudo transmitir aos pescadores e não pescadores a ideia de que a pesca nas águas interiores, como passatempo sustentável, exige o respeito pela vida aquática em geral e dos peixes em particular.

 Fizeram repovoamentos ou contam com efectivos autocnes do rio para aumentar a população?

Antes de eu ter passado a integrar a Direcção, sei que foram feitas repovoamentos, mas sem expressão útil já que as trutas eram logo capturadas nos primeiros dias de pesca e, claro, iam para ao fundo do cesto de vime.
Face a esta situação, o actual Presidente (mas antes da minha chegada) chegou a fazer um repovoamento com ovos em caixas tipo Vibert.
Com a minha chegada e por decisão consensual da Direcção, não mais serão feitos quaisquer repovoamentos.
Esta hipótese só poderá ser ponderada em casos extremos, por exemplo em caso de poluiçãoo severa ou outra causa que ponha em risco grave a população de trutas.
Contamos pois com os efectivos autóctones para aumentar a população, o que aliás temos já constatado nas duas últimas épocas por simples observaçãoo visual. Mas isto não quer dizer que as trutas sejam mais fáceis, pelo contrário!!

 Como encararam os ribeirinhos a concessão do Inha?

Eu penso que as reacções das populações ribeirinhas devem ser um pouco similares por todo o lado, com aqueles que são a favor e os que são contra.
Neste caso concreto, através dos documentos consultados na associação, e pelos contactos com o actual Presidente, fiquei a saber que o projecto inicial para a concessãoo abrangia uma área muito mais extensa. Pelo facto de tal extensão abranger mais do que uma freguesia, foi chumbada pois várias oposições manifestadas.
Actualmente ainda existem algumas pessoas que declaram a sua contrariedade em relação à existência da concessãoo, mas com calma e paciência, não temos tido grandes tumultos e penso que iremos conseguir prosseguir com o actual projecto.

Problemas com furtivismo na concessão, tem existido?

Infelizmente sim, dentro e fora da concessão.
Existe em primeiro lugar um grupinho de dois ou três pescadores que acham que uma concessãoo é sinónimo de peixe fácil e de cesto cheio e muitas das vezes, são esses os principais prevaricadores, que montam o material e percorrem as margens da concessão como quem vai em direcção à zona livre e, mal vêem que ninguém está a vigiar, lançam a linha e o que capturam metem ao cesto e dizem que foi na zona livre – tudo sem sequer obterem uma licença para pescar dentro da concessão.
Mas pior do que isso são esses mesmos sujeitos que, por vezes, vão para o rio ao cair da tarde e já com o anoitecer, entram na concessão para colocar fateixas com isco que depois vão recolher na madrugada do dia seguinte.
A reduzida dimensãoo da concessãoo e da nossa associaçãoo não permite a existência de um posto permanente de vigilante ou guarda do rio. Somos nós quem, dentro das limitações de tempo e meios de cada um, vai tentando exercer alguma vigilância.
Quando detectamos algum caso em flagrante, apelamos às autoridades, as quais, com a limitações que são conhecidas do grande público, procuram acorrer ao local para tomar conta das ocorrências.

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Há queixas transversais na comunidade de pescadores de trutas sobre a gestão de concessões, há queixas de pescadores que praticam pesca sem morte e com, de quem é a culpa, do estado ou dos concessionários?

Na minha opinião, a culpa é de ambas as partes.
Para mim, a criação das concessões foi uma forma de o Estado se desresponsabilizar da gestão dos meios aquáticos – afinal é tão fácil sacudir a água do capote!
Mas esta atitude do Estado, sempre na minha óptica, foi uma valente bofetada de luva branca aos pescadores!
“Com que então, vocês pescadores, dizem que não sabemos gerir os rios e os recursos aquáticos? Tudo bem, então passem vocês a gerir esses recursos e vejamos o que vai acontecer!”
E o que é que temos visto, não apenas na pesca, mas também na caça?!?! O descalabro total!!
Constitui-se um clube de amigos, pede-se um alvará para uma concessãoo e já está!!
Alguns nem placas colocam nas concessões, como ainda esta época tive oportunidade de verificar numa concessão aqui na zona Norte.
E o que temos assistido, salvo raras excepções, é a concessões que não representam qualquer interesse para os pescadores desportivos.
Nalgumas fazem umas largadas, enchem as arcas de trutas nas primeiras semanas da época, para justificar o dinheiro gasto e depois, no resto da época, não deixam ninguém pescar por já não haver trutas ou então deixam algumas pessoas fazer mais de 100 kms de deslocação para pescar num troço sem morte onde nem uma única truta se vê!
Foi uma forma indirecta de o Estado se desresponsabilizar e chamar, com razão, incompetentes a muitos pescadores!
Ouço frequentemente, sobretudo nas zonas livres, queixumes do género “Ah, não há fiscalização!!”
Também já fiz esse tipo de queixa, mas afinal, o que é que os pescadores querem? Que o Estado disponibilize meios para um sector onde uma licença de pesca anual e para todo o território custa uns míseros 6 euros?!?!
Vivemos numa época em que, bem ou mal, quem quer as coisas tem de as pagar!
E não digam que isso iria impedir os pobres de pescar! Era fácil: como em muitas coisas na sociedade, era questão de instituir licenças com custos mais baixos para quem realmente não tivesse condições monetárias.
Imagem%2B030 - À conversa com José BarbosaO que eu não tolero é os queixumes dos pescadores que reclamam, reclamam e continuam a reclamar. Quando é preciso deitar as mãos ao trabalho, nunca estão disponíveis para isso! Mas mal ouvem que em tal rio há umas trutas, têm o tempo todo do mundo para irem lá tentar fazer um brilharete, para encher o ego e se gabar perante os amigos! E com isso deixar o rio mais “pobre”!

 Uma das principais queixas é a enorme dificuldade que os pescadores que se deslocam de longe e querem visitar uma concessão é a enorme dificuldade que têm em conseguir a licença para as concessões, é uma realidade, eu próprio já a vivi, como vês este tema no futuro?

Eu próprio já vivi essa dificuldade a pelo menos dois níveis distintos.
Num primeiro caso, não conseguia a licença precisamente porque só poderia ser obtida num dia e hora específicos da semana e isso ficava a uns módicos 70 kms da minha residência!
Num segundo caso, passei três épocas a ligar para o Presidente (pois não tinha nenhum lugar físico onde me deslocar para obter a licença!) para tentar uma licença para pescar num determinado ribeiro e era-me sempre dito que a pesca estava fechada para repovoamento – o que eu sabia não ser verdade!!
Na verdade, eram os pescadores ribeirinhos que não viam com bons olhos que forasteiros viessem pescar “as trutas deles”.
Com muita paciência (três épocas!) lá fui dizendo que pesco sem morte e que não me importava que alguém viesse comigo para confirmar que não matava nem uma truta.
Em 2014, e acho que a minha paciência neste caso foi o elemento fundamental, lá me foi concedida uma licença para pescar!!
Na nossa associação temos vindo a pensar nessa questão e para esta época que se avizinha, além do contacto telemóvel comigo ou com o Presidente, vamos implementar a possibilidade de pedido de licença por email. Recebido o pedido, verificamos se para o dia pretendido existe disponibilidade de licença e remetemos a resposta em consequência, com as indicações do local onde pode ser levantada e paga a licença de acordo com as necessidades e disponibilidades de cada pescador.
De uma forma global, entendo que a evolução dos meios tecnológicos, quer no que toca às diversas formas de contacto, quer no que concerne à forma de emissãoo das licenças, deveria evoluir, o que seria benéfico não apenas para os pescadores mas também para as próprias associações.
Nos tempos que correm, a distãncia física não deveria constituir um impedimento ou um qualquer entrave na obtençãoo das licenças de pesca desportiva para as concessões.

As concessões são uma necessidade ou um mal menor?

As concessões não deveriam ser uma necessidade!
A constante e repetitiva demissão do Estado em exercer as suas funções acaba por fazer das concessões um mal menor.
E serve de desculpa para o Estado dizer: então vocês não são capazes de gerir os vossos próprios interesses?!?!
Esta demissão do Estado não ocorre apenas em Portugal, ocorre de uma forma geral um pouco por todo o lado, em que a gestão da pesca é entregue a associações e clubes de pesca locais sob a tutela desse mesmo Estado desinteressado!
Perante este estado das coisas, a mim cumpre-me dizer: Srs. Pescadores, o que querem? Esperar que as coisas aconteçam ou deitar as mãos ao trabalho?!
Prefiro claramente esta segunda alternativa, que é a seguida em locais que para mim são uma referência, como os Pirinéus franceses!!

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A pesca sem morte, uma obrigação moral, uma necessidade ou um fetiche desnecessário?

A pesca sem morte não é nem pode ser encarada como um fetiche desnecessário.
É sim uma tomada de consciência moral, perante a Natureza e perante a necessidade de preservação dos recursos naturais que felizmente ainda existem nalguns locais.
A pesca, ao invés de outras actividades, como por exemplo a caça, tem essa enorme vantagem de permitir a repetição do gesto, do momento em que o pescador exerce a sua actividade favorita.
Acresce que, está mais do que ultrapassada a época em que o exercício da pesca era uma prática destinada a contribuir para a alimentaçãoo do agregado familiar.
A pesca tem uma vertente essencialmente desportiva e como tal, a pesca sem morte faz todo o sentido e não deveria chocar as mentes minimamente esclarecidas.
Eu gosto de lembrar a muitas pessoas que a pesca sem morte é praticada sobretudo por pescadores de espécies consideradas “menos nobres”, como é o caso da carpa e de muitos ciprinídeos, o que não seria de compreender já que são espécies que abundam!!!
Não vejo ninguém a escandalizar-se por esses pescadores praticarem a pesca sem morte, uma prática quase sagrada onde gastam quantias apreciáveis em acessórios para manipular o peixe nas melhores condições e inclusive vejo carpistas a deitar produtos anti-infecções na zona picada pelo anzol!
Mas quando se trata de preservar a truta e impedir a pesca com morte, parece que de repente esses pescadores têm em casa os filhos a morrer à fome e todas as trutas devem ser sacrificadas para saciar essa carência!!!

Que principais alterações introduzias na actual legislação que rege a pesca aos salmonídeos?

Nunca me debrucei com a necessária atenção sobre tal questão pois, sinceramente, custa-me a crer que alguém, nos Governos que se vão sucedendo, tenha a verdadeira vontade de impulsionar este sector, começando por introduzir regras efectivas e duradouras de preservaçãoo dos recursos existentes.
Mas há aspectos que a meu ver são fundamentais e carecem de alteração pela via legislativa, sobretudo no que concerne ao regime livre.
Desde logo, reduzir o número de dias em que se pode pescar – não faz sentido que, não havendo limites no que concerne à possibilidade de capturas que cada pescador pode fazer, se continue a permitir a pesca todos os dias da semana.
Não sendo possível a generalização da pesca sem morte, impõe-se igualmente estabelecer um limite de capturas rígido, quer por dia de pesca, por pescador e por época com a obrigatoriedade de cada pescador fazer um relatório da sua actividade sob pena de na época seguinte não lhe ser permitido exercer o acto de pesca.
Estabelecer um tamanho mínimo diferente do actual. Parece-me que no contexto presente, é ridículo que, por um lado, o tamanho mínimo de captura seja de apenas 19 cm e que, por outro lado, este tamanho seja aplicável a todos os cursos de água salmonídeos. Deveria ser feito um levantamento minimamente rigoroso da idade/tamanho em que as trutas, consoante as regiões, atingem a maturidade e depois, munidos desses dados, estabelecer um limite de captura bem acima dessa fasquia de maturidade, de forma a permitir que uma truta tenha pelo menos duas a três épocas durante as quais se possa reproduzir.
Estabelecer zonas de pesca sem morte mesmo no regime livre – penso que, se é certo que não se deve radicalizar o estado das coisas de um momento para o outro, também não podemos fechar os olhos e não criar várias medidas de salvaguarda das trutas, mesmo no regime livre. As entidades ligadas à pesca e todos os organismos devem ter a consciência de que se trata de uma medida que se impõe.
Criar dois tipos de licenças para quem pretende pescar os cursos de água salmonídeos e os demais cursos de água. Trata-se de uma medida simples que há muito deveria ter sido tomada e que, muito comodamente, nenhuma entidade assume como necessária. Para aqueles que reclamam mais vigilância por parte do Estado, têm de estar dispostos a pagar o preço. Não pode o pescador tradicional pretende pescar uma espécie que cada vez escasseia mais em determinadas zonas do país, que cada vez mais sofre com as alterações climáticas e com a pressão de pesca, já para não falar do furtivismo e de poluições que ainda vão ocorrendo, ao mesmo preço de quem pesca pequenos ciprinídeos numa qualquer albufeira de barragem, onde ainda por cima a vigilância é muito mais facilitada.
Criar a figura do pescador-vigilante, em que um pescador, formado e credenciado para tal, pudesse exercer a fiscalização. Um pouco à imagem dos antigos guarda-rios, sou defensor de que deveria ser criada na nossa legislação a figura do cidadão cuja idoneidade e conhecimentos fossem reconhecidos pelo Estado e este lhe conferisse poderes de fiscalização. Não pretendo com isto criar “novos polícias” mas sim criar novos elos de ligação entre as necessidades que se sentem no terreno e os órgãos de polícia, estes sim dotados da autoridade estatal. Não tenho dúvidas de que, a existência destes pescadores-vigilantes iria contribuir em muito para refrear os ânimos dos pescadores furtivos e dos pescadores menos escrupulosos. A simples possibilidade de a qualquer momento dar de caras com alguém que levantaria um auto e serviria como elemento de testemunho e prova fundamental num processo de contraordenação, iria com certeza dissuadir muitos meliantes.
Por fim, entendo que a moldura punitiva em vigor nesta matéria de furtivismo de pesca e violação das leis da pesca é demasiado branda. Deveria todo o quadro normativo ser revisto de maneira a que as coimas e sanções aplicáveis tivessem um caracter mais efectivo e dissuasor.
Mas estas são apenas algumas ideias, que naturalmente considero imperfeitas mas que poderiam servir de ponto de partida para uma discussão séria e objectiva no quadro actual de tudo o que é relacionado com a pesca da truta em particular.

Nos últimos anos parece que há uma ténue tomada de consciência na necessidade da pesca sem morte, concordas ou tem uma expressão tão reduzida que pouco impacto tem?

Concordo. É uma realidade, embora ainda muito tímida quando comparada com o estado dos nossos cursos de água salmonídeos.
Apesar disso, o impacto positivo nota-se claramente nos locais que são frequentados por pescadores sem morte.
Digo isto com base na minha experiência e por referência aos cursos de água que frequento mais assiduamente.
Mesmo em zonas livres, tenho verificado que, se os pescadores que frequentam esses locais forem maioritariamente pescadores sem morte, as populações de trutas são mais significativas, quer em número quer em qualidade dos exemplares.
Imagem%2B028 - À conversa com José BarbosaPosso dar como exemplo, em sentido contrário, o rio Uíma. Pese embora a minha profunda ligação a este curso de água, já só o frequento por tradição e saudade. É um rio completamente devastado pelos homens do cesto de vime!! Além de não pouparem nada, ainda se permitem a utilização de métodos ilegais, tais como o uso do asticot como isco e inclusive pesca durante o defeso! Resultado, vai tudo!! Sou dos poucos pescadores sem morte que ainda vai a esse rio. É um desalento total! Isso não significa que não existam por lá umas trutas selvagens, pois há sempre algumas que escapam. Mas tenho o cuidado de não dar muito nas vistas quando lá vou, tanto mais que os homens do cesto conhecem-me e sabem que eu não pesco nos locais onde já não há nada e por isso muitas das vezes nem pesco para não verem onde sei que ainda há trutas.

 Os defensores da pesca sem morte muitas das vezes são acusados de fundamentalistas, achas que é uma falsa adjectivação de quem quer continuar a pescar com morte ou existe mesmo essa clivagem?

Eu diria que é um facto, mas um facto positivo.
Vejamos. Os defensores da pesca com morte dizem constantemente que é um direito levar um peixe para casa e fazem-no mesmo que esse peixe seja o último peixe que ainda nada no rio em questão.
Como tal, se é certo que os pescadores sem morte possam ser vistos como algo fundamentalistas, não o estão a ser mais nem menos do que os que entendem que existe um direito à “pesca com morte”.
Aceitaria que um pescador com morte me chamasse de fundamentalista se visse no comportamento do mesmo uma tomada de consciência de que não se pode pescar à exaustão até ao último peixe. Mas não é isso que vejo.
Assim, o fundamentalismo que pode parecer afectar os pescadores sem morte é um fundamentalismo saudável, que surge precisamente em contraponto ao exagero e às matanças a que, infelizmente, ainda hoje assistimos.

A pesca à pluma é o expoente máximo na pesca às trutas , no entanto sempre denunciei o facto de grande parte dos praticantes olharem para os demais praticantes de outras técnicas com sobranceirismo, é uma falsa questão ou uma realidade?

Não deveria ser, mas é uma realidade.
Na pesca, seja qual for a técnica empregue, deve imperar o respeito mútuo entre pescadores e o respeito para com a espécie que estamos a pescar.
É certo que, determinadas técnicas de pesca são, por si só, muito mais perigosas, já que põe gravemente em causa a possibilidade de sobrevivência do peixe e como tal, entendo que devem ser criadas restrições a tais técnicas.
Não o faço com snobismo, mas sim por mera necessidade de proteger a fauna piscícola.
Mas como dizia acima, é verdade que existe aquela atitude de alguma superioridade por parte de alguns dos praticantes da pesca à pluma em relação às demais técnicas.
Sem querer desculpar ninguém ou culpar quem quer que seja, também tenho notado, em muitos praticantes das outras modalidades, uma atitude negativa, do tipo “Olha lá vêm os filósofos”, os “que têm a mania que são bons” e outras coisas que tal.
E depois há os praticantes das outras técnicas que simplesmente param de pescar para admirar um plumista a pescar, já vivi essa experiências várias vezes.
No fundo, há um pouco de tudo e como dizia, o respeito deverá vir de ambas as partes.

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 Como vês o futuro da pesca à truta em Portugal?

Muito sinceramente, se continuar a seguir o caminho que tem seguido, temo que a curto ou médio prazo iremos perder mais alguns dos grandes bastiões da truta no nosso país.
De facto, tomando como ponto de partida a minha experiência pessoal, verifico que, seja a nível privado seja a nível estatal, não está a ser feito o que seria necessário para proteger esta nobre espécie que é a truta.
Ainda não existe coragem, por parte das entidades estatais, para, de uma vez por todas, ser repensado todo o universo da pesca aos salmonídeos – basta vermos o que tem acontecido aos salmões e às trutas mariscas, continuam a ser fortemente dizimados não havendo qualquer regra destinada à sua efectiva protecção.
Os resultados são os que se vêm: populações cada vez mais pobres de época para época.
Quanto à truta comum e salvo raras excepções onde já existe da parte de entidades privadas, um verdadeiro interesse em querer proteger a espécie, sem com isso impedir os pescadores de praticarem o seu passatempo favorito, nada de novo se vai vendo.
Temo que se perca demasiado tempo em palestras e conferências que se vão fazendo aqui e ali mas depois, ver as pessoas arregaçar as mangas e a trabalhar em concreto, já não se vê.
No entanto, os queixumes são uma constante e sempre no mesmo sentido: não há trutas, o Estado não faz repovoamentos, etc etc.
E eu pergunto: mas os pescadores querem pescar trutas selvagens, afrontar o desafio que é enganar uma pintona autóctone, ou querem é encher a arca, com o mínimo custo e de forma fácil?! Infelizmente, esta segunda hipótese é a que tenho visto com demasiada frequência.
Também com base na minha experiência, tenho verificado que ainda existem alguns redutos com uma excelente população de trutas selvagens. Onde? Em locais onde é custoso aceder e que exigem muito esforço físico para lá chegar, pois aí os prevaricadores e furtivos vão muito raramente devido à dificuldade de lá chegar e no final a recompensa acaba por não ser assim tão óbvia já que nesses locais as trutas não são assim tão fáceis como se possa imaginar.
Já li e já ouvi por muitas vezes que as mentalidades não se mudam facilmente e que é preciso várias gerações para isso.
É uma afirmação que não é totalmente correcta, do meu ponto de vista. Quando é necessário – e a protecção das populações de trutas autóctones é uma necessidade! – as pessoas devem agir, nem que seja através da Lei e impor o respeito das regras!
Imagem%2B029 - À conversa com José BarbosaAgora, cruzar os braços e assobiar para o lado como se tudo fosse uma fatalidade, é algo que a mim não me convence.

A pesca de competição tem um papel importante no desenvolvimento da modalidade, concordas ou é apenas teoria que não se vê na prática?

Não concordo nem discordo.
De facto, em muitas modalidades, a competição permite por vezes colocar uma determinada actividade “no mapa”.
Permite chamar a atenção do grande público para um desporto ou outra actividade de descontracção e saudável.
No entanto, a pesca de competição enferma em si mesma de um grave defeito que faz com que se transmita uma ideia errada do que é a pesca lazer.
Naturalmente, trata-se apenas da minha opinião e não pretendo com estas minhas palavras afectar ninguém.
A competição está, necessariamente, ligada ao sucesso do que está a ser feito, isto é, ao número, à conquista de pontos.
No futebol, ganha quem marca mais golos e não quem joga mais bonito.
No basquetebol ganha quem encesta mais vezes a bola, e não forçosamente quem joga melhor.
No atletismo, ganha quem for o mais rápido a chegar à meta e por aí fora.
E isto sucede com a pesca de competição, como em todas as modalidades desportivas. Para se ser vencedor, a única condição é fazer mais pontos que o adversário.
Por esta razão, ao pescador em competição o que interessa: capturar muitos peixes, no mais curto espaço de tempo e para isso na pesca à pluma em competição praticamente só vemos pesca à ninfa, com canas que saem do padrão comum e com uma forma de pescar onde muitas das vezes o lançamento clássico nem é executado.
Não estou com isto a tentar denegrir quem quer que seja, mas para mim, a pesca à pluma é muito mais do que isso!
É contemplação, é observação do que se passa. É esperar o tempo que for necessário para que a truta esteja a comer em confiança. É saborear o momento sem correrias pelo leito do rio fora.
Além do mais, a competição acaba por transmitir ao público uma ideia errada do que é a pesca à pluma pois o que o público vê e quer é capturas, muitas trutas, muito peixe a ser contabilizado para o pescador em causa.
E depois vemos principiantes na pesca à pluma a fazer referência ao competidor tal e tal como se a pesca à pluma se resumisse a manear um conjunto de ninfas pelo fundo do rio com uma cana de 11 pés. O principiante vem ávido de capturas, o que para mim distorce e desvirtua a pesca à pluma na sua essência mais pura.
Também pesco à ninfa, também utilizo por vezes e quando não tenho alternativas, métodos próximos dos da competição.
Mas neste sentido e penso que perceberam as minhas palavras, não considero a pesca de competição como a melhor forma de transmitir, quer a principiantes quer ao público em geral, a filosofia e a essência da pesca à pluma.

 Conheces outras realidades no estrangeiro, em Portugal lá chegaremos ou achas que ainda estamos noutro planeta e realidade distinta?

É arriscado alguém afirmar que iremos chegar ou não a determinadas realidades, desde logo porque as realidades mudam, mesmo nos países onde a filosofia ligada à pesca já leva algum avanço sobre nós.
A evolução dos tempos, das técnicas, dos materiais empregues, faz com que a mutação é uma constante e por isso, na minha opinião, deveríamos também saber, por um lado, ver o que de bom e mau se faz noutros países para tentar implementar o que é bom.
Mas deveríamos também, saber adaptar esses conhecimentos às nossas realidades e necessidades, para não sermos uns meros imitadores e muitas das vezes já com atraso.
Estou confiante de que, embora muito lentamente, as mentalidades começam a mudar no nosso país e penso que, com maior ou menor dificuldade, muitas coisas vão mudar e iremos assistir a muitas melhorias em vários aspectos da pesca desportiva em Portugal, em particular no campo da pesca aos salmonídeos.
Para isso, não bastará apenas reclamar, como tem sido feito.
O que será importante é que os pescadores não fiquem parados a reclamar pelo leite derramado e passem a tomar iniciativas, individuais ou colectivas, que obriguem a quem está do lado dos órgãos de decisão se veja sem alternativa a não ser a de mudar as coisas.

Imagem%2B032 - À conversa com José Barbosa

Pluma, sempre à pluma, que mais te encanta na técnica? porque achas que tantos afirmam e pensam que é algo tão complicado?

Já pratiquei todas as técnicas de pesca à truta e há largos anos que o faço exclusivamente à pluma.
Tratou-se de um processo gradual mas sem retorno!
Durante a minha adolescência pesquei sobretudo à medalha, tendo depois passado para a pesca à minhoca na qual me especializei ao ponto de mandar fazer as minhas canas por encomenda.
Ao longo dos anos, pese embora todos os cuidados que tinha, cada vez me satisfazia menos ver uma truta com a minhoca na garganta e sem possibilidades de ser devolvida à água com hipóteses de sobrevivência.
Além do mais, os gestos tornavam-se para mim cada vez mais repetitivos e o nível de desafio menos motivador.
Não é uma técnica fácil, note-se, mas depois de adquiridos os gestos fundamentais, o grau de satisfação de captura de uma truta ia sempre diminuindo.
A pesca à pluma é muito mais do que técnica, é acima de tudo uma conjugação de técnica com observação e adaptação do pescador às circunstâncias de cada momento.
Por muito que se conheça o rio no qual vamos pescar, nunca existem dois dias iguais a outro! Há sempre um elemento surpresa que altera completamente os dados da questão e que nos põe, muito rapidamente, a puxar pelos neurónios!
Na pesca à pluma, há aquele nervoso miudinho de chegar junto à água e assistir a uma eclosão de insectos, aquela dor fininha na barriga quando vemos uma truta instalada a comer, seja à superfície ou a meia água, e sabemos que só temos uma tentativa para fazer passar a pluma correctamente, há aquela truta que sabes que “mora” ali, que a vês a fazer um circuito à procura de alimento e desesperas quando não a consegues capturar ou exultas quando estás a sacar do aparelho fotográfico para imortalizar o momento!
Muitos afirmam que a pesca à pluma é complicada essencialmente, a meu ver, por duas razões: uns claramente para se vangloriarem de saber utilizar uma técnica que não está, segundo os mesmos, ao alcance “de um qualquer mortal”, outros simplesmente porque gostam de complicar o que deveria ser simples.
Não gosto de ver as coisas sob esse prisma!
A pesca à pluma só é complicada se as pessoas não seguirem os passos correctos ou se quiserem ultrapassar etapas!
Que é exigente, isso é, como em muitas coisas na vida.
Mas com vontade, dedicação e aplicação, os resultados começam a aparecer mais depressa do que se pensa.
Se alguém pretende pescar à pluma, mas durante a época toda só experimenta uma ou duas vezes e ainda por cima vai com espírito derrotista, é óbvio que a pesca à pluma vai decepcionar essa pessoa e até afastá-la da modalidade.
Tive a oportunidade de acompanhar muito de perto, na época de 2014, um pescador de trutas já com longa experiência mas que nunca tinha pescado à pluma. Conselhos telefónicos, oferta de umas quantas plumas saídas do meu torno, e acompanhamento durante várias saídas, os resultados foram rapidamente alcançados.
É um plumista principiante com apenas uma época de experiência e com o qual fiz excelentes saídas e que mesmo quando vai sozinho sabe bem fazer boas pescarias.
O que fez com que resultasse? Simples: durante toda a época só pescou à pluma!! Durante toda a época não se envergonhou de pedir conselhos e de me acompanhar. Não se acanhou em observar, não para imitar mas sim para aprender e forjar os seus próprios mecanismos pessoais. Pescou à ninfa, à seca, variou as diversas técnicas e acima de tudo, acreditou!! Como tal, não me espantou o seu sucesso, trabalhou para isso!

Imagem%2B024 - À conversa com José Barbosa

  Foste um autodidacta ou tiveste quem te orientasse?

Em muito do que faço na vida, sou um autodidacta, pelo menos nas fases iniciais.
Isso deve-se também à minha personalidade, bastante adepta de momentos de solidão, de momentos em que estou sozinho a pensar por mim próprio e sem depender de quem quer que seja.
A minha primeira verdadeira experiência à pluma remonta à minha adolescência, em que, numa ida a França, comprei um conjunto de seis plumas – que mais tarde vim a saber serem umas March Brown afogadas.
Via algumas revistas francesas e para mim, uma pluma era uma pluma, era tudo seca, qual afogada ou ninfas. E para mim uma linha de pesca à pluma era apenas uma linha mais grossa que as demais!!
Assim, recordo-me de ter protagonizado uma cena ridícula em que, assim que experimentei desisti: comprei uma linha de nylon 80/100 (das mais baratas obviamente) e instalei uns metros no meu carreto Ryobi (de spinning) e a essa linha atei duas plumas como tinha visto nas tais revistas francesas.
Obviamente que fiquei desencantado com aquilo, pois com a minha cana de spinning de cerca de 2,10 metros, não lançava nada, e essa experiência durou uns curtos dez minutos.
Mas o bichinho já lá estava, continuei a admirar a técnica e a ler sobre a matéria e então comecei a perceber onde tinha feito tudo mal!
Estudante, não tinha os meios financeiros para me lançar na aventura e por isso, durante os anos seguintes, continuei a pescar trutas à medalha e depois à minhoca.
Durante esses anos, fui acumulando conhecimento meramente teórico e lá fui percebendo o que verdadeiramente era a pesca à pluma.
Numa outra ida a França, comprei um conjunto de seis moscas para pescar ao sereno (o famoso “coup du soir”) da Ragot e guardei essas plumas (quase todas tricópteros) entre o meu material e de quando em vez ia deitar-lhes os olhos, e sonhar!
Por volta de 1997, passei numa conhecidíssima loja de material de pesca no Porto, que na altura estava em liquidação total pois, sinais dos tempos, ia encerrar. Comprei então uma cana de 9 pés para linha #6, da Shakespeare (que ainda possuo), um carreto da Okuma (que também possuo) e uma linha flutuante, tudo por cerca de sete mil escudos!
No pátio de casa lá fui ensaiando uns primeiros lançamentos, sempre sozinho e sempre apenas com os conhecimentos empíricos que ia colhendo nas revistas francesas.
É então que começo, por essa altura, a fazer as primeiras saídas no final da época, ao cair do dia, como adivinham!
E, sem saber ler nem escrever, lá fui capturando as primeiras trutas à pluma, quase todas com um tricóptero acinzentado que sei lá porquê, era o que mais me atraia de entre o conjunto que tinha comprado.
Note-se que na altura não existiam meios como nos dias de hoje, nomeadamente a internet, os fóruns sobre pesca, entre muita coisa que hoje acaba por facilitar (às vezes dificultar!) a vida aos principiantes.
Nas épocas seguintes, sempre sozinho, lá fazia eu as minhas saídas de pesca à pluma no final da época, quase sempre no Rio Uíma, cujos recantos não representam qualquer segredo para mim.
Fui-me apercebendo, também pela leitura e sobretudo através de um ou outro vídeo que ia comprando, que a minha técnica tinha muito por onde evoluir e que eu estava era a estagnar no que diz respeito a esta técnica.
Imagem%2B020 - À conversa com José BarbosaA própria cana e linha já me pareciam muito fortes para pescar às trutas e decido então, através de catálogo e correspondência postal, comprar uma Orvis para linha #4, de 8,6 pés, que ainda hoje faz as minhas delícias nalgumas saídas!
Rapidamente, também através de catálogo, comprei um kit de montagem de plumas, em 2000 e, com muita decepção, acabo por abandonar temporariamente tal tarefa pois não conseguia montar nada que me satisfizesse.
Por essa altura, tomo contacto com outros plumistas em encontros organizados aqui ou ali – já não me recordo ao certo como tomei conhecimento dos mesmos, mas penso que terá sido através da então denominada “Caça e Pesca” ou “Linha na Água” – e inclusive participei no encontro preparatório de onde surgiu a criação da Associação Portuguesa de Pesca à Pluma.
Aos poucos e poucos fui conhecendo diversos pescadores de pluma e com isso mesmo ganhando novos conhecimentos sobre a técnica.
Mas mantive sempre uma costela de solitário, ainda hoje sendo o dia em que, muitas vezes, enveredo por esses ribeiros fora completamente sozinho em busca de momentos únicos e de pura descontracção.
Não tive, portanto, um verdadeiro orientador no sentido clássico da expressão, tive foi uma evolução que foi crescendo ao sabor dos meus encontros com outros plumistas.
Imagem%2B026 - À conversa com José BarbosaNos últimos anos tenho também, quando consigo, feito uma semana de pesca à pluma nos Pirinéus franceses, sempre acompanhado por um guia, que me tem dado excelentes lições a todos os níveis e já são alguns os amigos que por lá tenho feito, todos eles sempre dispostos a partilhar conhecimentos mútuos e saídas de pesca quando por lá passo.

Que conselhos dás a quem se quer iniciar na modalidade?

Quando acima disse que a quantidade de informação que hoje existe ajuda muito, mas também pode atrapalhar, é uma realidade que tenho constatado nos principiantes que me pedem conselho: o excesso de informação não ajuda!
Para um principiante a quantidade de informação que existe hoje em dia, sobretudo facilmente acessível através da internet, acaba por constituir um elemento de distracção do essencial que é a pesca à pluma.
Assim, vemos inúmeros modelos de canas, de carretos, de linhas, de fórmulas de terminais, de nylons tão diversos quanto as marcas existentes, e, sobretudo, tantos e tantos milhares de plumas que o principiante fica completamente atordoado e sem saber para onde se virar.
Sem ordem de preferência ou importância, daria os seguintes conselhos:
Um principiante tem antes de mais de perceber que não é de um dia para o outro que o plumista que tem pela frente aprendeu toda a informação e experiência. É um processo gradual, que pode ser mais ou menos rápido de pessoa para pessoa, mas não se pode ultrapassar etapas.
Tendo isto em mente, irá perceber que para começar na modalidade não precisa de ter vinte e tal canas nem carretos e linhas de todos os tamanhos e feitios e muito menos ter um milhão de plumas nas caixas que enfia no colete.
E daí que, antes de adquirir uma qualquer cana terá antes de mais de perceber qual a espécie que vai pescar à pluma: o material não será o mesmo consoante vá pescar trutas, carpas, barbos ou achigãs. Vamos admitir que, como é norma, pretende pescar trutas. Haverá então que analisar quais os cursos de água nos quais irá praticar mais vezes esta modalidade. Não é a mesma coisa pescar num rio de planície, largo, com pouca vegetação ou pescar num ribeiro estreito, coberto de vegetação.
E para responder a tudo isto, o melhor é procurar uma pessoa que já tenha experiência na pesca à pluma que possa orientar, com maior segurança, o melhor caminho a seguir.
Neste preciso aspecto, deixo aqui um conselho que considero muito importante e que na esmagadora maioria dos casos não é tido em conta: um principiante terá de tentar aprender as técnicas e aspectos da pesca à pluma, mas não tentar em caso algum copiar ou simplesmente imitar o seu mentor.
De facto, como em muito na vida, nem tudo o que é bom para um é bom para o outro, sendo certo que cada indivíduo tem sempre as suas particularidades que devem ser exploradas no bom sentido.
O facto de um mentor ter um cana, vamos supor, de 8 pés para linha #1, isso significa apenas que o mentor já sabe o que quer e que atingiu um patamar que lhe permite fazer essa escolha para pescar naquele preciso cenário e condições de pesca. Um principiante, para não correr o risco de ficar decepcionado com a modalidade, deverá procurar, e ser devidamente aconselhado, a utilizar uma cana que não seja de extremos, nem na acção da mesma, nem no comprimento nem no peso da linha que suporta.
Para mim, uma cana versátil para o pescador principiante, será uma cana de 8,6 pés, para linha #4 flutuante de tipo WF, com uma acção progressiva. A isto, acrescentar um terminal com cerca de 9 pés a terminar em 5x (ou 15/100).
A partir daqui, o principiante irá trabalhar e começar a perceber a dinâmica da técnica e quando se sentir à vontade, poderá começar a explorar outras canas, outras linhas, consoante os cenários em que pescar.
Outro erro que é muito comum eu verificar nos principiantes é a vontade de, após pegar numa cana de pluma, tirar logo imensa linha para efectuar lançamentos longos e compridos. Salvo a prática em determinados rios e em determinadas circunstâncias, a esmagadora maioria das trutas são capturadas a curta distância, na ordem dos 5 a 6 metros.
Mais importante do que lançar longe, é fazer uma boa aproximação e um bom posicionamento em relação ao posto onde supomos ou vimos uma truta.
O principiante vai à internet, faz uma busca sobre lançamentos na pesca à pluma e fica logo de boca aberta com uma dupla tracção, que propulsiona a pluma a mais de 15/20 metros. E pensam que, para serem bons plumistas, têm de saber fazer lançamentos olímpicos!!
Eu não sei fazer e não faço dupla tracção!!! E não me considero inferior aos plumistas que sabem lançar em dupla tracção!!
Importante é aprender os gestos básicos e depois ir evoluindo ao gosto e necessidades de cada um!
De que serve perder tempo a treinar o lançamento em dupla tracção, se depois se pratica a pesca em pequenos ribeiros de montanha em que se pesca de ponta?!
Já tenho também reparado que certos mentores gostam de complicar a coisa, para fazer a técnica parecer mais difícil do que realmente é. Só esses é que sabem lançar, só esses é que têm as plumas fatais, só esses é que têm uma cana XPTO. Alguns o farão inadvertidamente sem sequer se aperceberem que estão a desorientar o principiante, outros fazem-no, deliberadamente, de propósito para engrandecer o seu próprio ego!!
Facto é que o principiante tem de ter uma mente aberta para as várias realidades da pesca à pluma, sem nunca se deixar amarrar ou cegar por este ou aquele plumista, este ou aquele material, esta ou aquela técnica.
Outro elemento muito importante é também o que está relacionado com as plumas!!!
Ora aqui temos um campo em que são mais as dúvidas do que as certezas!
Que pluma escolher?! Seca, ninfa, afogada ou streamer?!
A minha resposta é: a pluma que em primeiro lugar inspirar confiança ao pescador!
Claro que essa confiança resultará de um processo evolutivo que decorre da experiência e do refinamento da técnica de cada um.
Se o pescador estiver a utilizar uma pluma na qual não tem toda a confiança naquele momento, isso, inevitavelmente vai influenciar o lançamento, o pousar da pluma, a deriva da pluma e são tudo elementos que se irão traduzir numa captura ou num falhanço.
A pluma pode ser excelente, mas se tudo o que a rodeia, a começar pelo estado mental do pescador, não estiver ao mesmo nível, num ou noutros pontos irão ocorrer erros que irão influenciar o sucesso ou insucesso da pesca.
A título exemplificativo, um dos poucos amigos com quem faço saídas de pesca adora pescar com secas tipo parachute. Eu não desdenho tais plumas e até tenho uma caixa apenas com esse tipo de plumas. Mas são poucas as vezes em que utilizo uma pluma parachute. E isso não faz com que os nossos resultados sejam muito diferentes!
Muito haveria ainda que dizer aos principiantes, mas se me permitem uma nota final, eu diria para não complicarem. Simplifiquem sempre, quer na pluma utilizada, quer no terminal, quer no lançamento e sobretudo, simplifiquem a forma de abordar os postos de pesca.
O complicado não é forçosamente o mais eficaz!!

Imagem%2B025 - À conversa com José Barbosa

Observem, muito, não apenas os outros pescadores, mas também e sobretudo, o rio, os locais por onde passam, a vegetação, os insectos que aqui e ali fazem os seus voos, observem a superfície da água. Não ataquem uma truta à pressa, porque ela só vai fugir se fizerem mal as coisas. Uma truta a alimentar-se dá tempo para tudo e mais alguma coisa. Dá tempo para trocar de ponta, dá tempo para trocar de terminal, dá tempo para terminar de pluma, dá tempo para apreciarmos o seu vai e vem e retirarmos mais uma lição.
Porque na pesca em geral e na pesca à pluma em particular, não há ninguém que saiba tudo! A aprendizagem é constante, uns mais outros menos, temos todos os dias coisas novas para aprender!

Imagem%2B031 - À conversa com José Barbosa

 Queres contar aos leitores 5 modelos de plumas que nunca faltam nas tuas caixas?

Sou, por essência, um pescador de pluma seca. Mas vou sempre preparado para todos os cenários, sobretudo no início da época em que as águas correm fortes.
Assim, no meu colete irão encontrar um número exagerado de caixas de plumas, mas lá está, é mais um elemento psicológico ligado à minha necessidade de confiança do que propriamente uma necessidade de trocar um número de vezes infinito a pluma com que estou a pescar.
Sem excluir outras que por vezes se revelam fundamentais, há algumas que nunca faltam nas minhas saídas de pesca.
Uma Adams (seca) em tamanho anzol #14 ou #16, sobretudo nos primeiros meses da época, para imitar a March Brown e a Baetis Rodhani.
Um tricóptero (seca) em tons acastanhados, também em anzol #14 ou #16, que é útil durante toda a época de pesca e na esmagadora maioria dos rios.
Uma efémera (seca) com o corpo em quill de perú e asa em CDC, tons de bege, anzol #16 ou #18, que tenho sempre ao dispor ao longo de toda a época – sobretudo nas zonas mais calmas e com uma superfície de água estável.
Uma hydropsiche (ninfa) em tons de bege e castanho, lastrada com uma ou duas cabeças de tungsténio (de cor cobre) para pescar bem perto do fundo, em anzol curvo (tipo caddis) de tamanho #12, que utilizo sobretudo em águas fortes e profundas.
Uma efémera (ninfa) com ou sem cabeça de tungsténio (consoante o nível de água a que pretendo pescar) em tamanho #12 ou #14, numa montagem feita com um misto de fibras de cauda de faisão e dubbing de pêlo de lebre e de esquilo.
Muitas mais poderia aqui descrever, mas muitas delas são variações destas que acabei de citar e não duvidem de que estas nunca faltam nas minhas saídas de pesca.

Imagem%2B019 - À conversa com José Barbosa

A truta que mais prazer te deu a capturar?

Escolher uma truta que me tenha dado mais prazer de capturar do que as outras, é uma tarefa inglória e certamente iria induzir-me a mim próprio em erro.
Poderia facilmente descrever aqui a captura da maior truta, mas seria uma resposta demasiado óbvia e não forçosamente sinónimo de melhor captura no que ao gesto diz respeito.
Assim de repente, lembro-me de uma truta capturada na época de 2014, precisamente no Rio Uíma, numa das poucas vezes em que por lá passei.
Chegado ao local, e enquanto me equipava, verifiquei que estava um pescador sensivelmente da minha idade, a pescar à minhoca num cantinho onde já fiz excelentes capturas.
Ele lá ia lançando e conduzindo a minhoca mas nada.
As águas estavam um pouco turvas devido às chuvas das vésperas e por isso optei pela minha imitação favorita de hydropsiche, num terminal com a ponta em 5x (equivalente ao 0,15).
Entrei na água uns bons vinte metros abaixo do local em causa e na margem oposta, pois não quis perturbar a acção de pesca do outro pescador.
A cerca de dez metros do outro pescador (mas sempre na margem oposta) lancei um “Boa tarde” e ele olhou directamente para mim (até aí tinha olhado de soslaio, como se estivesse a fazer de conta que não me tinha ainda visto…).
Perguntei se ele não se importava que eu lançasse na margem onde eu estava ou se ele fazia intenções de lançar para lá.
Ele disse que não, pois não conseguia lançar para lá.
Apesar de ele estar a explorar o melhor posto (onde uns meses depois, já no defeso, vi uma belíssima truta com mais de 40 cms) eu sabia, por conhecer muito bem o rio, que na margem oposta havia uma corrente manhosa, junto a uma pedra submersa, onde por vezes se instalava uma truta a comer.
Como o local é manhoso (a corrente de superfície é completamente diferente da corrente submersa), lancei a ninfa cerca de 1 metro acima do local e imediatamente baixei a ponta da cana para que a ninfa fosse arrastada para a trajectória correcta.
Gesto acabado de executar e sinto um puxão na linha, ao qual, instintivamente reagi levantando a ponteira da cana e assim cravando o anzol numa truta com cerca de 25 cms que, segundos depois estava no meu camaroeiro. Pescando com anzóis sem barbela, foi fácil de a descravar e peguei na minha máquina de fotografar, tendo feito, como usualmente, duas ou três fotos sem retirar a truta da água. Coloquei a máquina em modo de filmagem e assim filmei durante alguns segundos aquela truta a regressar ao seu habitat.
Enquanto estou a arrumar a máquina, ouço o outro pescador e dizer “Isso sim, é mesmo por desporto!” Olhei para ele e vi que já não tinha a cana em acção de pesca e estava, há não sei quanto tempo, a observar-me.
Respondi-lhe que era preciso preservar e que me dava tanto prazer capturar um truta como soltá-la e vê-la a regressar à agua em boas condições. E ele então, com desalento, diz-me “Realmente, é um gesto bonito mas é preciso ter muita coragem para devolver à água uma truta boa como essa!”. E foi-se embora pelo rio abaixo, não o tendo mais visto pescar enquanto a minha visão alcançava a linha de horizonte.
Esta e outras trutas ficam-me na memória pois capturar um ou mais peixes na presença de um pescador para quem um peixe vai parar ao cesto, tem um gosto especial, não para dizer que sou melhor do que eles, mas sim porque isso permite-me dar o exemplo e demonstrar que a pesca sem morte é uma realidade, não é uma mera frase da boca para fora como infelizmente ainda é a prática de muitos pescadores.

Agradeço novamente a gentileza do José em aceder ao meu pedido, deixo de seguida o email onde podem solicitar informações e licenças para a concessão de pesca do rio Inha e ainda o telefone do José Barbosa para o mesmo efeito:

arpescacanedo@gmail.com  

917826940— ATENCIÓN: El artículo pertenece al BLOG de «Robalos na alma» —


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